
Jorge Amado I
Eu, 19 anos, estudante de comunicação, Capitães da Areia nas mãos. Assistia uma palestra de Jorge Amado, numa Bienal de Literatura em São Paulo, com o coração na boca, nervosa ensaiando a cena: “me dá um autógrafo!”. Esforço sobre humano, considerando-se a minha natureza anti social... Mas consegui! Voltei pra casa tarde da noite, num ônibus lotado, livro colado no peito, gentilmente autografado por um senhor de cabelos brancos, sábio, genial... Que sensação!
Jorge Amado II
Eu, 38 anos, produtora de TV, carregando fichas com sugestões de perguntas, fitas Betacam, cronômetro... Esperava a hora em que aconteceria a gravação de uma entrevista com Zélia Gattai, lá no Rio Vermelho. O equipamento era armado e regulado, enquanto eu percorria aquele terreno apinhado de árvores de toda espécie. Era o jardim da casa de Jorge Amado! Parei para acariciar um cachorro de pele enrugada (se não me engano, um pug), quando ouvi uma recomendação dada por Zélia: “Por favor, não ultrapassem aquele portão, porque lá descansa Jorge.” (Ele estava muito doente, tinha perdido a lucidez e morreria dias depois). Jamais ousaria transpor aquele portão, nem por um furo de reportagem, nem pela vontade de estar perto de quem um dia me fez vencer um mundo de timidez.

